Casas Bahia fecha 298 lojas e demite cerca de 1,9 mil funcionários em reestruturação que pode atingir 3 mil trabalhadores
Corte representa 28,7% da rede física da companhia e ocorre em meio a prejuízos bilionários, fechamento de unidades e uma nova fase do plano de transformação da varejista
O Grupo Casas Bahia atravessa uma das maiores reestruturações de sua história recente. Entre quinta-feira (13) e sexta-feira (14) de agosto, a companhia encerrou as atividades de 298 lojas em diferentes regiões do Brasil e desligou aproximadamente 1,9 mil funcionários. O número de demissões ainda pode chegar a cerca de 3 mil, segundo informações divulgadas pelo Valor Econômico e repercutidas por veículos especializados.
O fechamento das unidades representa aproximadamente 28,7% da rede física da empresa, que contava com pouco mais de mil lojas. Ao final de 2025, eram 1.042 unidades, contra 1.064 em 2024 e 1.078 em 2023. A redução realizada agora, portanto, supera com larga margem o ritmo de enxugamento observado nos últimos anos.
A movimentação faz parte de uma estratégia de redução de despesas e reorganização operacional diante da pressão financeira enfrentada pela companhia. De acordo com as informações divulgadas, cerca de 600 trabalhadores foram desligados na quinta-feira, enquanto outros 1,3 mil a 1,4 mil cortes estavam previstos para a sexta-feira. Uma fonte ouvida pelo Valor estimou que o número total de demissões poderia alcançar 3 mil pessoas. Até o momento, porém, o número efetivamente confirmado é de aproximadamente 1,9 mil desligamentos.
A dimensão do corte chama atenção porque a redução não ocorre de maneira gradual. Em vez de fechar unidades aos poucos ao longo de vários meses, a empresa concentrou o encerramento de quase 300 lojas em apenas dois dias. A medida altera de forma significativa a presença física da marca e reforça a estratégia de reduzir estruturas consideradas menos rentáveis.
Prejuízos pesam sobre a decisão
A nova rodada de cortes ocorre em um momento de forte pressão sobre as contas da Casas Bahia. A companhia acumulou prejuízo líquido próximo de R$ 3 bilhões em 2025 e voltou a apresentar resultado negativo expressivo no primeiro trimestre de 2026, quando o prejuízo chegou a aproximadamente R$ 1,1 bilhão.
Apesar das dificuldades, a operação digital apresentou crescimento. No primeiro trimestre, as vendas digitais de produtos próprios avançaram 26%, enquanto a receita bruta consolidada cresceu 6,4%, alcançando R$ 8,8 bilhões. O desempenho das lojas físicas, porém, recuou 1,8% no mesmo período, evidenciando a diferença de desempenho entre os canais de venda.
A empresa vem tentando reduzir o impacto do endividamento e dos custos financeiros por meio de uma reestruturação iniciada nos últimos anos. O processo envolveu renegociações de dívidas e alterações na estrutura de capital da companhia.
Segundo trimestre amplia o alerta
Neste domingo (16), a Casas Bahia divulgou os resultados do segundo trimestre de 2026, acrescentando novos elementos ao cenário que envolve os cortes.
O grupo registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no período, contra R$ 555 milhões negativos no segundo trimestre do ano anterior. Apesar do número expressivo, a companhia informou que R$ 9,1 bilhões desse resultado correspondem a efeitos contábeis não recorrentes relacionados à segunda fase de seu Plano de Transformação, sem impacto direto sobre o caixa no trimestre.
Entre os principais efeitos contabilizados estão uma baixa de R$ 971 milhões em ágio, R$ 1,8 bilhão em contingências decorrentes de revisões contratuais, R$ 502 milhões relacionados à reestruturação e R$ 210 milhões em ativos imobilizados. Também houve uma baixa de R$ 5,7 bilhões em imposto de renda diferido.
Os números operacionais, entretanto, mostram um quadro diferente do prejuízo contábil. A receita líquida do segundo trimestre chegou a R$ 7 bilhões, alta de 1,6% na comparação anual, enquanto o lucro bruto alcançou R$ 2,3 bilhões, crescimento de 10,9%. O EBITDA ajustado ficou em R$ 518 milhões, queda de 9,4% sobre o mesmo período de 2025.
Mesmo excluindo os efeitos considerados não recorrentes, o prejuízo líquido ajustado foi de R$ 978 milhões no trimestre, aumento de 76,2% em relação aos R$ 555 milhões negativos registrados um ano antes.
Uma rede física cada vez menor
O fechamento de 298 lojas não surgiu de forma isolada. A Casas Bahia já vinha diminuindo sua estrutura física. Nos 12 meses encerrados em março de 2026, a companhia havia reduzido em 26 unidades sua rede, considerando aberturas e fechamentos. Foram 12 lojas da Casas Bahia e 14 do Ponto Frio.
A velocidade da redução agora, porém, é muito maior. Somente os 298 estabelecimentos encerrados em agosto correspondem a quase três em cada dez pontos físicos existentes no grupo.
A estratégia indica uma tentativa de concentrar recursos em operações com maior potencial de retorno e diminuir os custos associados à manutenção de uma extensa rede de lojas. O movimento também acompanha uma transformação no comportamento do consumidor, com maior participação das compras digitais no varejo.
Demissões provocam reação sindical
Além do impacto econômico e social provocado pelo fechamento das lojas, a forma como parte dos desligamentos ocorreu também passou a gerar questionamentos trabalhistas.
O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região anunciou que pretende ingressar com uma ação coletiva contra a Casas Bahia. A entidade questiona a maneira como as demissões foram realizadas e afirma que trabalhadores teriam sido surpreendidos com o encerramento das unidades. O sindicato também sustenta que houve falta de diálogo prévio em relação às dispensas coletivas.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, em algumas localidades funcionários chegaram aos estabelecimentos e encontraram as lojas fechadas. A entidade sindical busca discutir judicialmente a situação e os efeitos dos desligamentos. A Casas Bahia ainda não havia apresentado, até a publicação das informações consultadas, uma manifestação pública detalhada sobre a ação sindical.
O que acontece agora
A nova fase de reestruturação coloca a Casas Bahia diante de um desafio duplo: reduzir custos rapidamente sem comprometer sua capacidade de venda e, ao mesmo tempo, reorganizar uma empresa que ainda possui forte presença no varejo físico, mas enfrenta um cenário de crédito restritivo, despesas financeiras elevadas e mudanças no comportamento dos consumidores.
A companhia afirma, em seus resultados, que a segunda fase do Plano de Transformação contempla medidas para reduzir o capital empregado e ajustar a estrutura operacional. O fechamento das lojas e a reorganização de pessoal estão entre as ações associadas a esse processo.
O tamanho do corte realizado nesta semana, contudo, mostra que a transformação da empresa será profunda. Com 298 lojas encerradas e aproximadamente 1,9 mil trabalhadores já desligados, a Casas Bahia passa por uma das maiores reduções de sua estrutura em um curto período. A possibilidade de os cortes alcançarem até 3 mil empregados mantém o mercado e os trabalhadores atentos aos próximos passos da companhia.
Para consumidores que utilizavam as unidades fechadas, uma das principais questões passa a ser como ficará o atendimento relacionado a carnês, pagamentos, trocas, entregas e demais serviços anteriormente realizados presencialmente. A tendência é que a empresa concentre cada vez mais essas operações em canais digitais e em uma rede física menor e mais seletiva.
O episódio evidencia também uma mudança mais ampla no varejo brasileiro: grandes redes tradicionais estão sendo obrigadas a rever o tamanho de suas estruturas físicas diante da expansão do comércio eletrônico e do aumento dos custos para manter lojas abertas. No caso da Casas Bahia, essa transformação ocorre simultaneamente a uma grave pressão financeira, tornando o processo de reestruturação ainda mais relevante para o futuro da companhia.





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