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Genética reorganiza a psiquiatria: estudo na Nature identifica 5 grupos biológicos de transtornos mentais

Análise com mais de 1 milhão de casos revela que esquizofrenia e bipolaridade compartilham até 80% das variantes genéticas e aponta novos caminhos para diagnóstico e tratamento


Genética reorganiza a psiquiatria: estudo na Nature identifica 5 grupos biológicos de transtornos mentais

A genética acaba de dar um passo decisivo para mudar a forma como os transtornos mentais são compreendidos. Um dos maiores estudos já realizados na área, publicado na revista Nature, analisou variantes genéticas comuns em 14 condições psiquiátricas e reorganizou essas doenças em cinco grandes grupos biológicos com base em semelhanças genéticas.

O trabalho reuniu dados de mais de 1 milhão de pessoas diagnosticadas e comparou seus perfis genéticos entre si e com indivíduos sem transtornos psiquiátricos. O resultado reforça algo que clínicos já observavam na prática: muitos transtornos compartilham bases biológicas importantes, o que ajuda a explicar sintomas semelhantes e dificuldades no diagnóstico.

Entre os achados mais relevantes está a forte sobreposição genética entre esquizofrenia e transtorno bipolar. Segundo os pesquisadores envolvidos, até 80% das variantes genéticas comuns podem ser compartilhadas entre as duas condições, sugerindo que elas podem representar pontos diferentes dentro de um mesmo contínuo biológico.

Cinco fatores genéticos
A análise agrupou os transtornos em cinco fatores principais.

O primeiro reúne condições compulsivas, como anorexia nervosa e transtorno obsessivo-compulsivo, além de conexões moderadas com síndrome de Tourette e transtornos de ansiedade.

O segundo é formado por esquizofrenia e transtorno bipolar, associados a padrões de expressão genética em neurônios excitatórios e áreas do cérebro ligadas ao processamento da realidade.

O terceiro fator está relacionado ao neurodesenvolvimento, incluindo transtorno do espectro autista, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e, em menor grau, Tourette. Nesse grupo, os genes envolvidos tendem a se expressar precocemente no desenvolvimento cerebral.

O quarto reúne condições chamadas internalizantes, como depressão, transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático. Nesse caso, os genes mais expressos estão ligados a células da glia, responsáveis pelo suporte estrutural do cérebro, e não diretamente aos neurônios.

O quinto fator envolve transtornos por uso de substâncias, como álcool, nicotina, cannabis e opioides. Nesse grupo, foram identificadas variantes associadas a enzimas que metabolizam o álcool e a receptores ligados à resposta à nicotina, por exemplo. Esse fator também apresentou maior associação com indicadores socioeconômicos, sugerindo influência mais acentuada do ambiente.

Variantes comuns e impacto multifatorial
O estudo focou nas chamadas variantes genéticas comuns, especialmente os polimorfismos de nucleotídeo único, conhecidos como SNPs. Embora cada variante isoladamente tenha efeito pequeno, o conjunto delas exerce influência significativa em doenças multifatoriais, como as condições psiquiátricas.

Além dos cinco fatores, os pesquisadores identificaram um componente adicional, apelidado de fator P, que reúne variantes genéticas compartilhadas por todas as 14 condições analisadas. Isso reforça a hipótese de que existe uma vulnerabilidade biológica ampla que pode se manifestar de diferentes formas clínicas.

Entre todas as condições avaliadas, a síndrome de Tourette foi a que apresentou maior especificidade genética, com cerca de 87% das variantes sendo exclusivas da condição.

Diagnóstico e tratamento
Os resultados podem impactar diretamente o futuro da psiquiatria. Ao compreender melhor os mecanismos biológicos compartilhados entre transtornos, abre-se espaço para diagnósticos mais precisos e para o desenvolvimento de terapias direcionadas.

Uma das possibilidades é o reposicionamento de medicamentos, estratégia em que um fármaco já aprovado para uma condição passa a ser utilizado em outra com base em mecanismos biológicos semelhantes. Essa prática já ocorre em parte na psiquiatria, mas tende a se tornar mais estratégica com dados genéticos mais robustos.

Representatividade genética
Os pesquisadores destacam, no entanto, um desafio importante: a predominância de dados de populações de origem europeia em estudos genômicos. A maioria das análises foi feita com base nesse perfil populacional, o que limita a generalização dos resultados para outras regiões.

Há, porém, um movimento crescente para ampliar a representatividade, inclusive com participação de grupos brasileiros integrados a consórcios internacionais de genômica psiquiátrica. O objetivo é garantir que futuras descobertas reflitam melhor a diversidade genética global.

Neurodiversidade e contínuo biológico
Um ponto central do debate é a relação entre variações genéticas associadas a transtornos e características consideradas normais, como traços de personalidade, padrões de sono, cognição e comportamento social.

Pesquisadores apontam que muitos transtornos parecem surgir nos extremos de um contínuo de variação genética natural, especialmente quando determinadas combinações de genes interagem de forma desfavorável com fatores ambientais e estresse.

Essa visão reposiciona a doença mental não como resultado de uma biologia defeituosa, mas como a interseção entre variação genética natural e contextos ambientais adversos.

A estimativa de que metade da população mundial pode preencher critérios para pelo menos um transtorno mental ao longo da vida reforça a importância de compreender esses mecanismos de forma ampla e integrada.

Ao reorganizar os transtornos mentais com base em fatores genéticos compartilhados, o estudo não apenas aprofunda o entendimento científico sobre a mente humana, como também sinaliza uma transformação gradual na forma como a psiquiatria poderá diagnosticar e tratar seus pacientes nas próximas décadas.




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